Em quantos lugares você pode estar ao mesmo tempo? Esta seria uma pergunta muitíssimo fácil de ser respondida há 200 anos atrás. Porém, hoje em dia, esta premissa óbvia ganhou novos parâmetros. Somente um ignorante responderia sem pensar “um”. O mesmo tipo de ignorante que diria a Galileu que a Terra era obviamente quadrada sem nunca ter navegado por toda ela.
Não há necessidade de se ter muito acesso a tecnologia de ponta para que fiquemos confusos. Vamos supor que você ligue para um amigo que não vê há muito tempo. Vamos supor, também, que ele more em Tokyo e que você esteja lendo este texto no Rio de Janeiro. Depois de um descontraído papo pelo celular com viva-voz (onde você conseguiu escutar barulhos da filha dele chorando e do trânsito na agitada cidade), ambos conseguiram se recordar de inúmeras aventuras pelos bares da Lapa. A nostalgia o faz ficar triste, pois a muito não tem tempo de se divertir tanto.
Depois de toda essa interação com o outro lado do mundo, você ainda seria capaz de responder que só pode estar em um lugar de uma só vez? Não era uma extensão da sua voz que estava com ele, conversando em Tokyo? Não era exatamente o que você queria falar que ele ouvia? Não era uma parte do seu corpo na companhia dele no Japão?
Esta pergunta, ao contrário da de Galileu, não espera uma resposta estritamente física. Não importa em quantos lugares você pode estar plenamente ocupando espaço ou quanto o seu tato pode sentir, mas sim quantos lugares podem ser afetados pela sua presença de uma só vez.
Durante uma conversa escrita pelo msn messenger com um amigo, posso conversar com minha mãe sobre o almoço e ainda estar com a webcam ligada, deixando uma conhecida saber o que faço. Não sou eu nesses três lugares? Na minha casa, na de meu amigo e na de minha conhecida? Não estou eu a interagir com os três?
A tecnologia hoje em dia possibilita um médico operar um paciente estando a quilômetros de distância dele. Possibilita uma pessoa conhecer perfeitamente outra, mesmo ambas estando muito longe e usando identidades completamente falsas. Um espião pode até seguir seus movimentos sem nunca vir até seu bairro. As vontades de qualquer um viajam distâncias inimagináveis para se realizarem.
Isto é o Hipercorpo. É o corpo virtual. A vontade que se desloca além dos limites físicos, sustentada pela tecnologia.
Sendo que a cada dia novos processos são criados para encurtar distâncias e prolongar a extensão deste “hiper corpo”, como devem agir os criadores de ambientes digitais, para proporcionar aos novos usuários uma expansão cada vez maior das suas vontades pelo cyberspace?
A grande problemática que nasce em nosso tempo, para garantir esta façanha aos usuários, é como organizar todas as investidas expansionistas em duas palavras chave: “personalização e interatividade”. Mobiles, video-games, PCs, todos os produtos já usados pelas pessoas devem interagir virtualmente e ter algum fator que torne sua utilização personificável e interativa com os outros produtos.
Ou seja, do seu celular você deverá ser capaz de interagir com outra pessoa, seja ela usuária de um computador no escritório ou console na sala de estar. Ainda nesse contato deve ser possível acessar informações pessoais, façanhas e dados personificáveis, como avatares e rankings e até câmeras para se ver outros usuário.
Essa customização já acontece com alguns produtos, mesmo que de maneira ainda muito limitada, como resposta mercadológica para as necessidades dos clientes. Mas ainda não existe o ideal que dará base para as ações coorporativas. A filosofia que dará base para que as criações seguintes.
Acredito que esta solução virá afiliada a um processo cada vez mais real: o usuário de tecnologia irá se virtualizar. Com o processo de formação de identidades nesta realidade paralela, cada vez mais, ele irá sentir o quão real e necessária a realidade virtual tem se tornado e o quão, ainda mais necessário, será o desdobramento do corpo e da mente em várias direções simultaneamente.
Quem nunca ouviu alguém falar a seguinte frase: “Eu teria que ser mais de uma pessoa para poder realizar tal ato”. Isso terá que acontecer para que as pessoas sintam-se plenas, em um futuro pouquíssimo distante.
15.3.07
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2 comentários:
Você escreve muito bem... e por incrivel que pareça me ajudou muito ler seu texto para entender hipercorpo, que ainda não tinha compreendido bem e é conteudo da minha prova de amanha...
Vc é jornalista?
Abraços
Lucia Nahás
Não não sou, e muito obrigado pelo comentário Lucia. Só fui vê-lo aogra, quase 4 meses depois.
Fico realmente feliz que a tenha ajudado a compreender este tema, pq é um dos que mais me cativam. Se quiser explorar mais tente os textos do Pierre Levy! É a ele a quem credito ter entendido este assunto!
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